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[ Saiu o segundo volume da ótima antologia de Roberto de Sousa Causo: Fronteiras ]
Nos dois primeiros volumes estão vinte e duas narrativas, de 1882 a 1997. São mais de cem anos de ficção científica produzida por brasileiros, cobrindo três períodos da evolução do gênero em nosso país, mostrando que ele teve e tem um papel na experiência brasileira, e merece um lugar no cenário das letras nacionais. A imortalidade e a duplicação da identidade humana, o pós-apocalipse e o temor nuclear, as viagens espaciais e o contato com seres alienígenas, e a presença do estranho entre nós. São histórias variadas em tom e atmosfera, que expressam diversidade temática e de estilos, e o potencial do gênero para combinar-se com outras formas e perspectivas, literárias e científicas, recriando-se indefinidamente. [o editor]
[ Rober Pinheiro comenta o Portal Fundação ]
[ Conversa com os colunistas d’O Bule ]
[ Quais são os cinco erros mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever ficção científica? ]
1. O uso desequilibrado da ciência. Alguns escritores do mainstream, ao se deparar com o desejo ou a encomenda para escrever uma história de FC, muitas vezes levam a tarefa ao pé da letra: acham que precisam escrever um tratado científico, porque, em sua opinião, só é ficção científica se tiver ciência. Outros, um pouco mais escolados, sabem que não é bem assim, e se permitem as liberdades que o ofício generosamente oferece, que são as da invenção: no entanto, acabam por inventar absolutamente tudo, inclusive novas leis da física ou da lógica, que acabam não levando a lugar algum. Ou seja, ciência em excesso ou nenhuma ciência não põem mesa em termos de FC.
2. A linguagem rebuscada e formal. O escritor do mainstream parece pensar que FC é necessariamente algo asséptico como o interior de uma nave espacial do filme 2001: uma odisséia no espaço, e portanto deve-se ter ou formalidade e grandiloqüência, ou frieza, tanto nos gestos quanto nos diálogos dos personagens. Eles esquecem que a FC é mais um modo do que um gênero, ou seja, é perfeitamente possível (e até aceitável) que se use a FC para falar da nossa realidade, do aqui e do agora. Uma das características do estranhamento, segundo Viktor Chklóvski, é justamente trazer a familiaridade para o leitor (o que pode ser feito pela via da linguagem, fazendo com que as personagens falem gírias ou pelo menos uma linguagem sem barroquismos) a fim de que o choque da estranheza seja maior (por exemplo, a percepção de que estamos em outro planeta, ou num universo paralelo).
3. O desconhecimento praticamente absoluto do que se produziu nos últimos trinta anos na literatura do gênero. Na década de 1970, talvez devido ao cinema, talvez devido à grande quantidade de traduções de autores clássicos como Isaac Asimov, Ray Bradbury e Arthur C. Clarke, e até mesmo outros que hoje são desconhecidos do grande público, como Fredric Brown e Robert Sheckley, alguns escritores do mainstream tinham um bom conhecimento do que se produzia lá fora. Rubem Fonseca e Ignácio de Loyola Brandão escreveram histórias de ficção científica bem antenadas com sua época (Fonseca escreveu alguns contos do gênero na década de 1960, ao passo que Brandão escreveu o romance experimental Zero e a distopia Não verás país nenhum nas décadas de 70 e 80 respectivamente). Mas hoje você não vê mais autores de fora do gueto escrevendo boas histórias de ficção científica. Cabe aqui um parêntese: o interessante é que o autor brasileiro até pode esperar um Roberto Bolaño ser publicado em português, mas se demorar muito ele vai à luta e compra a edição em espanhol, destrincha, percorre o labirinto e lê. Quer dizer, ele toma conhecimento do cânone (seja esse cânone oficial, acadêmico, moderno, modernoso etc.), seja com esse autor, ou com outro mais atual de outro país, como os EUA, a Inglaterra, a França. Mas para o mesmo acontecer com um autor de ficção científica este precisa virar cult, como Philip K. Dick (que morreu há vinte e sete anos), caso contrário nada feito.
4. O foco na alegoria. O escritor do mainstream de modo geral tenta fazer um breakthrough escrevendo com o foco na forma, e não no conteúdo, e não raro acaba escrevendo alegorias ou parábolas, à maneira dos contes philosophiques franceses. Isto não é um erro: os anos 1960 e 1970 estão cheios de ótimos exemplos narrativos de FC experimental cujo foco era voltado mais para a forma do que para o conteúdo, como Stand on Zanzibar, de John Brunner, ou Dhalgren, de Samuel Delany. Entretanto, não estamos mais nos anos 70, e o que vemos hoje é o retorno da narrativa clássica (leia-se clássica aqui não como conservadora, mas como conversadora, que dialoga com tradições, como Conrad, Balzac, Faulkner, Hemingway, Férenc Molnar, Érico Veríssimo), e a ficção científica só tem a ganhar com a versão século 21 desse diálogo.
5. Não me ocorre um quinto erro, ainda que pecadilhos existam vários.
Fábio Fernandes
[ Portal Fundação no café Flores na Varanda ]
[ Tibor Moricz comenta o Portal Fundação ]
[ Axis mundi no blogue do poeta Ninil Gonçalves ]
[ Gide na Folha de S.Paulo ]
[ Álvaro Domingues resenha Futuro presente ]
[ Esqueçam tudo o que já foi dito sobre o fim do mundo: ele ocorrerá mesmo no dia 31 de julho de 2013 ]
[ Octavio Aragão resenha Futuro presente ]
[ O próximo portal ]
[ Programa Espaço Aberto ]
[ Getulina, Penápolis, Buritama, Ilha Solteira e Valparaíso ]
[ Axis mundi em BH ]
[ Dez poetas portugueses contemporâneos simplesmente sensacionais ]
[ Quais são os cinco erros mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever ficção científica? ]
1. Confundir FC com o trash: muita gente que conhece a FC de ouvir falar vincula o gênero a elementos trash, como naqueles filmes antigos que uniam baixo orçamento e invasão marciana. Existe FC trash, sem dúvida, mas não é o elemento trash que define a FC.
2. Não estudar ciência antes de fazer uma especulação científica: assim como um romance histórico exige pesquisa, uma especulação sobre algo que (ainda) não existe também exige pesquisa para ser plausível, convincente. Devemos sempre saber sobre o que estamos escrevendo, não?
3. Achar que as regras da boa escrita perdem valor na FC: já vimos muitos bons escritores mainstream desaprenderem a escrever quando tentam a FC. A preocupação com a qualidade do texto deve ser a mesma.
4. Achar que verossimilhança não combina com FC: investir no absurdo pelo absurdo só funciona no humor, e mesmo assim com conhecimento de causa, senão vira humor involuntário.
5. Ignorar a alternativa slipstream, obra que transita dentro e fora do gênero, como 1984. Muita gente que tem prevenção contra a FC já apreciou uma obra de FC sem se dar conta. Histórias mainstream que empregam elementos fantásticos, techno ou futurista também são FC.
Ataíde Tartari
[ Futuro Presente no Caderno B do JB ]
[ Quais são os cinco erros mais comuns que os escritores do mainstream cometem ao escrever ficção científica? ]
1. Achar que a ficção científica no cinema e nos quadrinhos representa tudo o que o gênero pode ser. É preciso ler alguma FC em literatura.
2. Achar que a linguagem da ficção científica depende apenas de neologismos pseudo-científicos, tipo XPTO-23 ou Megatrônico R-4321. A linguagem da FC é complexa, estabelecida ao longo de muitas décadas, e mesmo quem quiser inovar ou romper com ela precisa conhecê-la em alguma extensão.
3. Confundir ficção científica com ficção científica juvenil. A maior parte das técnicas narrativas do mainstream são aceitáveis na FC, e não é preciso ser paternalista com o leitor.
4. Achar que ficção científica é coisa de americano, de modo que seus personagens têm de ser americanos ou quando muito europeus, e o contexto do Brasil ou de outros países em desenvolvimento não têm lugar dentro do gênero. Pelo contrário: a atual fronteira sendo desbravada pela FC é justamente o Terceiro Mundo e as situações multiculturais.
5. Desprezar o diálogo com os praticantes de ficção científica brasileira. Ninguém reinventa a roda nem faz sozinho um gênero criar raízes em um país como o Brasil.
Roberto de Sousa Causo
[ Portal Stalker no Aguarrás ]